Terraço Aberto

Sexta, 7 Junho, 2013 § 0

Não há pódios nem hierarquias no “Terraço Aberto” de Cabo Delgado. O debate “reflectivo, crítico e aberto” junta todos os meses em Pemba cidadãos, organizações da sociedade civil, órgãos governamentais, políticos e jornalistas, em assembleias populares sobre o desenvolvimento socio-económico da região.

Terraco Aberto Maio 2013 - Casa Provincial da Cultura

O Terraço Aberto de Maio 2013 tomou lugar na Casa Provincial da Cultura de Pemba

O convite é lançado pela Associação Suíça para a Cooperação Internacional (Helvetas), mas os temas são votados anualmente por quem participa nos Terraços. Se o que se pretende é “atingir um nível em que a sociedade civil é a essência de governação participativa”, então a organização dos próprios debates não poderia desenrolar-se de outra forma.

Cabo Delgado em 2040

Chegou a última sexta feira de Maio. É meio dia e um sol abrasador faz com que tudo pareça devagar. “Este calor aqui? É dos recursos naturais: rubis, petróleo, gás natural”, explica convicto o condutor do táxi que me leva até à Casa Provincial da Cultura onde acontece o quinto Terraço Aberto de 2013, “as riquezas naturais respiram, e nós sentimos este calor”.

Pemba, vista aérea

Pemba, vista aérea

Não será tão literal o impacto das reservas de hidrocarbonetos e outros recursos minerais em Cabo Delgado, mas é sem dúvida quente o debate em torno das mudanças que as descobertas têm trazido à região. As terras mais a norte de Moçambique estão a tornar-se num dos principais atractivos para grandes investidores internacionais em todo o contente africano. Mas no que toca o desenvolvimento humano e sustentável, muito fica por cumprir.

Não alheio ao efectivo e potencial boom de desenvolvimento na região, surge no início de 2010 o fórum “Terraço Aberto”. Com debates em torno do tema mãe “Cabo Delgado 2040”, nos últimos meses passaram pelo Terraço questões como a transparência da indústria extractiva, a juventude e as barreiras no mercado de trabalho. Em Maio, debateram-se “Políticas e Programas de e para Pessoas com Necessidades Especiais”.

O desenrolar de um Terraço

Num mural à vista de todos estão patentes o mote, as regras e o programa da sessão. Bárbara Kruspan, gestora do projecto, dá as boas vindas e percorre os tópicos ali enumerados. O palco existente na Casa da Cultura só é usado para dar apoio à equipa técnica. Todos os cerca de 50 participantes estão sentados em cadeiras de plástico agrupadas pelo terreiro.

Mural do Terraço

Mural do Terraço

Entra em cena uma performance teatral que leva os presentes a reflectirem sobre as dificuldades que um invisual sente no seu dia-a-dia. Depois, iniciam-se as “Conversas de Café” entre grupos de quatro ou cinco pessoas. O objectivo é cada um falar sobre como seria viver com uma deficiência na sua comunidade.

Conversas de Café

Conversas de Café

Para alimentar a reflexão, foram convidados como oradores Guilherme dos Santos, Director Provincial da Mulher e Acção Social (DPMAS), e Adela Miguel, da Direcção Provincial da Educação e Cultura (DPEC). As intervenções do governo permitem conhecer algumas experiências e planos para a inclusão das pessoas e com necessidades especiais. Mas será que as políticas e os programas têm o devido efeito na vida de quem “porta deficiência”?

Levanta-se no Terraço José João Laire, da Associação Moçambicana dos Deficientes Visuais (AMDV). Recusando o termo “portador de deficiência” – “não é como se fosse algo que trouxessemos na mala!” -, Laire traz a voz da sociedade civil e a opinião das próprias pessoas com necessidades especiais. O extenso relatório que apresenta, põe a descoberto a difícil realidade vivida por aquelas pessoas na sociedade, na família, nas instituições de ensino e no mercado de trabalho.

Um breve interlúdio musical temático marca o tom enquanto os participantes recolhem senhas para a sua vez de intervir. No debate são abordadas questões como a dicotomia inclusão-exclusão, a acessibilidade a centros de apoio ou de educação especial, como lidar com a descriminação ou porque não são as actividades culturais mais participadas por pessas com necessidades especiais. Em termos de programas, o Fórum das Associações dos Deficientes (FAMOD) apontou críticas às políticas que não saem do papel, e às diferenças de província para província no que diz respeito à atribuição de subsídios e isenções.

Todo o debate era transcrito em directo para a página de Facebook do Terraço que simultaneamente era projectado na parede que delimita o Terraço.

Todo o debate era transcrito em directo pelo Leopoldino Jerónimo para a página de Facebook do Terraço que simultaneamente era projectado na parede que delimita o Terraço.

Entre uma ou outra intervenções mais incendiadas – como a do jovem que apelou à manifestação ou o outro que acusou “Nós não somos deficientes, as nossas instituições é que são!” – o fecho do Terraço deixa no ar a possibilidade de mudanças positivas veiculadas por um diálogo aberto entre políticos, organizações e cidadãos comuns. Enquanto a garantia efectiva da plena igualdade de direitos para cidadãos e cidadãs com necessidades especiais, conforme definida no Artigo 37 da Constituição da República de Moçambique, estiver por cumprir, os participantes do Terraço Aberto prometem continuar a alimentar o debate.

O próximo Terraço Aberto, intitulado “Cinquenta Vale: Corrupção na Via Pública”, tomará lugar – como sempre – na última sexta feira do mês, dia 28 de Junho pelas 13h30. Acompanha o blog, e no Facebook o perfil, página e grupo.

Publicado no Jornal @Verdade de 7 de Junho de 2013 com o título “Terraço Aberto ao debate crítico de Cabo Delgado”. Já antes tinha escrito sobre os Terraços Abertos no Global Voices, mas agora que pude testemunhar in loco o desenrolar de um terraço, e conhecer pessoalmente o núcleo de voluntários que prepara estas assembleias populares, fiquei encantanda. É este o caminho a seguir.

o que o rio não quer

Quinta, 23 Maio, 2013 § 0

resistes?

resistes?

O meu país é o que o mar não quer, Ruy Belo

Maputo

Quinta, 23 Maio, 2013 § 0

Quando cai o ocaso outonal entra o rosa num céu recortado em prédios de dez, quinze, trinta e três andares nesta cidade irrompida em cimento com hora de ponta agitada nas avenidas de quatro, seis, oito faixas ladeadas por neons e chapas ao som da marrabenta que vibra nas alturas.

maputo - ho chi minh

ho chi minh com lenine

Nos passeios imundos de terra, cascalho, plástico, sobram sapatos sem par meticulosamente expostos em fila indiana – não quer dizer que exista uma ordem para entrar ou chegar a algum lugar. A-fe-nal, faltam os pés e as pernas,
- não é assim mesmo?
- um, uhm.
- é não é?

Uhm. Não quer vender no mercado os sapatos, lá onde se dança sem causa ou propósito,
- Papai, já ‘tá um pouco grosso, pois não?
- um, uhm.
- é não é?

Uhm. Mas mexe e abana a cintura do alto do seu cabelo grisalho. Há quem cante e eu oiço do nono andar da torre onde estou quando cai o ocaso rosado e entra mansa a noite em Maputo.

Invicta chuva cai

Quinta, 28 Março, 2013 § 0

Invicta, a chuva cai sem dar tréguas a quem quer desertar do estado de hibernação à sombra de dias mais plenos. Veio a praga, o piolho e a peste, ao pão chegou o mofo e há bolor nas paredes. As ideias entorpeceram como os canos do logradouro. Ó vizinha, tens soda cáustica? [1], é que ainda há-de virar o tempo – virá esse da abundância frugal – mas agora abriga-te, irmã, por baixo das lãs feitas em remendos.

A perda anda à espreita e esbarra em nós de tez baça, amarelecida. E como se não bastasse, também se resignou a poesia: “Fugir é melhor que prometer / esperança em melhores dias” [2]. O imaginário faz-se de lugares distantes e uma dose de maresia. Bebe mais da inspiração transoceânica do que da realidade continental que nos tem reféns na periferia.


Poucos somos e já é tarde, mas o princípio cerceia nas delongas dialécticas de café – uma amiga galega contou que nunca tinha compreendido Saramago, «em toda a sua extensão», até demorar-se por aqui uns meses nas lides da Institucional Burocracia.

A chuva continua a pingar no balde do vão de escadas. São umas a seguir às outras, é a recessão em camadas. Já pensava em nós sem saber Clarice, “a alma aqui não faz sombra no chão” [3]

”É urgente: se não for povoada, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la. E se acontecer, será demais: não haverá lugar para as pessoas. Elas sentir-se-ão tacitamente expulsas.”

Portugal, só resta “seguir para a tua alma por outros caminhos“. Por fazer fica o resgate à cama em que adormeces, tiritante e ausente com panos de pedras quentes.

Trocar tostões

Sábado, 15 Dezembro, 2012 § 0

Começa a dar frutos a Oficina de Moeda Alternativa que organizei com a minha homónima da Horta-lá! em três espaços alternativos no Porto, em Novembro: hoje, na 3ª Feira de Trocas das Virtudes nasce a VIRTAS, a nova moeda alternativa de apoio às trocas e serviços.

compazine #2 / espaço de intervenção: moeda alternativa

moeda alternativa na rubrica espaço de intervenção da compazine #2. (clicar na imagem para ver a compazine de dezembro de 2012 completa.)

Para facilitar a entrada da moeda em circulação, haverá um “infopoint” onde serão prestados esclarecimentos ao longo do evento, e onde quem queira pode inscrever-se:

A Virtas pode ser usada em qualquer edição da Feira de Trocas das Virtudes ou noutros espaço aderentes.

A adesão pressupõe a disponibilidade de produtos ou serviços.

Cada pessoa recebe o total de moedas sociais no valor de 150 Virtas (uma nota de 50, duas de 20, duas de 10, quatro de 5, cinco de 2, e dez de 1).

O valor dos objectos, serviços e saberes são determinados pela pessoa que os põe à troca; o intercâmbio é negociado pelos interessados. É necessária a inscrição.

A Feira de trocas das Virtudes pretende ser um espaço livre e cooperativo, onde as pessoas se reúnem para trocar bens e serviços sem utilizar dinheiro. Podes trazer livros e trocar por roupas ou oferecer um trabalho de carpintaria por um corte de cabelo. Apesar de possibilitar a satisfação de algumas necessidades individuais, esta feira não é um evento de caridade mas antes de solidariedade. O objectivo passa por criar comunidades que disponibilizem produtos e competências, sem pensar no lucro ou na competição, valorizando o saber e a criatividade. Para além disto, a feira também será um espaço de convívio e aprendizagem, com música, conversas, workshops, copos e morfes, etc.

Acontece todos os terceiros sábados do mês, no Passeio das Virtudes, ou se o tempo não ajudar, no Rancho Folclórico do Douro Litoral, na Calçada da Virtudes nº 2.

“Mas afinal o que é que tu fazes?”

Quinta, 13 Dezembro, 2012 § 0

Um post publicado hoje no Global Voices ilustra os fluxos que correm nos bastidores da nossa redacção global, exclusivamente virtual, e composta por mais de 700 colaboradores que diariamente atravessam fronteiras, trespassam fusos-horários e eliminam barreiras linguísticas e culturais para que as melhores histórias reportadas por cidadãos comuns nos meandros das redes sociais e plataformas online ganhem maior visibilidade para o resto do mundo.

O exemplo dado refere-se precisamente à equipa de língua portuguesa que coordeno no Global Voices, por isso tomo a liberdade de acrescentar um ponto, e o meu sotaque à história.  Ontem à noite perguntaram-me outra vez “mas o que é que tu fazes exactamente?”, e voilá, a seguinte explicação de como um artigo se tornou realidade mostra como os esforços coordenados de várias pessoas se combinam para fazer do trabalho do Global Voices algo tão único.

23 de Outubro de 2012: Chego de pantufas ao local de trabalho (a minha sala), e enquanto dou o primeiro gole de café, leio um email da Janet, em Londres, a avisar-me que de madrugada (já eram 9 horas, mas eu assumo o fuso horário do Brasil) escreveu uma notícia muito breve em inglês sobre a carta aberta lançada na noite anterior por um índio da comunidade Guarani Kaiowá, do estado do Mato Grosso do Sul, Brasil. Entretanto o João Miguel, em Fortaleza, já tinha também enviado um email para o grupo de discussão da equipa de língua portuguesa a dar o alerta sobre este caso relacionado com o segundo maior grupo étnico indígena do Brasil, que enfrenta mais uma ameaça de despejo das suas terras ancestrais. Seis outros membros do grupo reagem, a partir das suas casas, universidades ou locais de trabalho, em cinco cidades diferentes do Brasil, Portugal e Espanha. Em conjunto começamos a trabalhar um artigo e a pesquisar sobre a notícia.

24 de Outubro de 2012: Eu, enquanto editora dos países de língua portuguesa, publico o artigo em Português em colaboração com o Diego, a Elisa, o João Miguel, o Luís e o Rapha.

25 de Outubro de 2012: Antes de me meter no comboio rumo a Sul, para participar na Conferência Cultura Pirata na Sociedade de Informação, confirmo que a Janet pode começar a tradução do texto para o inglês neste dia. A editora multilíngue, Paula, em Londres, e o co-editor do Global Voices em Português, João Miguel, em Fortaleza, dão apoio à legendagem do vídeo incluído no texto.  Já à noite, a versão em inglês é enviada para a lista de discussão dos sub-editores, e é adoptada pelo Kevin, que está em Melbourne, na Austrália, onde o Sol já nasceu. O Kevin faz a revisão do artigo, e publica-o no site do Global Voices em inglês.

Em poucas horas, nove pessoas em três continentes, cinco países e sete cidades colaboraram para amplificar “O grito da resistência Guarani Kaiowá” para o mundo em português e em inglês.

26 de Outubro de 2012: A Inês traduz o artigo para francês.

31 de Outubro de 2012: A Cristina, o Mario e a Gabriela traduzem o artigo para catalão, alemão e espanhol, respectivamente.

2 de Novembro de 2012: A Giulia traduz o artigo para italiano.

Neste preciso momento, outras equipas do Global Voices estão a fazer exactamente a mesma coisa: atravessam fronteiras, trespassam fusos-horários e idiomas, monitorizam a liberdade de expressão online, dão apoio a novos grupos que queiram juntar-se à conversa global, sempre com o objectivo primordial de dar voz e trazer momentum a notícias importantes que a mídia mainstream não quer ou não pode cobrir.

Manter estas dinâmicas é uma tarefa tão intensiva quanto apaixonante e guia-se sobretudo pela urgência que o colectivo sente na prossecução da missão do Global Voices.

Se o mundo fala, nós procuramos ouvir e contextualizar para além do frenesim cibernético. A nossa maior subversão é servir graciosamente de complemento à “grande mídia” em vez de dedicar energia a criticá-la. O que distingue a nossa forma de trabalho descentralizado é o laço global criado, valorizando a colaboração em detrimento da competição tantas vezes instituída em organizações ao “serviço do bem”.

É graças ao financiamento que recebemos de fundações que nos têm apoiado ao longo dos anos que continuamos a fazer o que fazemos. Para nos mantermos independentes, livres e sustentáveis, também dependemos do generoso apoio de amigos e leitores como tu. O teu donativo ajuda a cobrir custos de servidor, administrativos e os nossos programas de micro-bolsas, para além da equipa do Global Voices :)

Unir os pontos

Terça, 11 Dezembro, 2012 § 0

“A Internet disponibilizou um espaço seguro onde as redes de indignação e de esperança se ligam. As redes formadas no ciberespaço estendem o seu alcance ao espaço urbano.”

Manuel Castells

“Quando não há Internet, cria a tua própria rede” *

A ideia é criar uma rede de telecomunicações local, autónoma, livre, neutra e aberta. Parece utopia, mas a Guifi.net já funciona – e bem! – em muitos outros lugares da Península Ibérica. Desde há pouco mais de um ano, um pequeno grupo de entusiastas no Porto esteve a adiantar serviço na implementação desta rede comunitária para a cidade. Já há nós funcionais, parte da interface está implementada, e os módulos base estão prontos a receber mais informação. Queremos ver em 2013 a guifi.net a bombar cá no Porto! O próximo encontro é no domingo, 16 de Dezembro, a partir das 15h na Casa da Horta. Não é preciso conhecimentos especiais para participar: é só trazer o portátil e vontade de traduzir em colectivo alguns textos e documentos que explicam o que é esta rede e como funciona.

Chamamos-lhe Hackathon de tradução para português, mas mete bolos e comunidade ao barulho!

Dia 16 há hackathon de tradução da guifi.net, o projeto de redes wireless comunitárias que está a arrancar no Porto. Vai ser um belo serão na Casa da Horta, com bolos, chá, café e cerveja artesanal, para dar energia e combater o frio :)

"Dia 16 há hackathon de tradução da guifi.net, o projeto de redes wireless comunitárias que está a arrancar no Porto. Vai ser um belo serão na Casa da Horta, com bolos, chá, café e cerveja artesanal, para dar energia e combater o frio :) "

“Em todo o mundo, a tensão entre a liberdade na rede e as políticas de controle usando pretextos diversos – pirataria, pedofilia, etc. – chama a atenção para uma questão hipotética mas ainda assim presente: o que acontece quando alguém puxar a tomada da internet” **

GUIFI.NET?
Guifi.net é uma rede comunitária de telecomunicações Livre, Aberta e Neutra. Usa um acordo de interconexão onde cada um ao ligar-se passa a formar parte da rede, obtém conectividade, e torna-se seu proprietário. Segue a filosofia do software livre e fomenta o seu uso e desenvolvimento. [Para saber mais, os slides da apresentação da Guifi.net no Future Places, em Outubro de 2012, pode ser consultada aqui: http://bit.ly/10CXsIg]

PARA QUE SERVE?
A Guifi.net pretende interligar os cidadãos independentemente dos seus recursos económicos e da zona em que residem, reduzindo assim o fosso digital. A rede serve para partilhar conteúdos e recursos entre os elementos de cada rede, paralelamente à Internet. Os serviços associados à rede podem ser muitos, como por exemplo alojar um servidor com filmes para descarregar entre as pessoas com conectividade à rede ou partilhar net.

"O nosso objectivo: unir as ilhas". Flyer de comemoração do 1000º nó, em 2006.

"O nosso objectivo: unir as ilhas". Flyer de comemoração do 1000º nó, em 2006.

QUAIS AS VANTAGENS?
Um modelo mais justo
Contribuis ao manter a rede actualizada e não pagas pelo seu uso
Autonomia
És proprietário da rede. Não dependes das operadoras tradicionais
Mais velocidade
A tua equipa é que impõe os limites

COMO FUNCIONA?
Graças à disponibilidade de equipamentos e estruturas, tornou-se possível considerar a ideia de redes comunitárias de baixo custo, auto-organizadas e geridas localmente.
1. Entra na rede
2. Constrói a tua infraestrutura
3. Conecta-te ao teu vizinho
Mais informação: http://guifi.net/es/trespassos

DE ONDE VEM?
Teve origem no Estado Espanhol, na Catalunha, e tem crescido amplamente, espalhando-se hoje por mais de 18.000 nós operacionais na Península Ibérica. É a primeira operadora não comercial de telecomunicações reconhecida.

GUIFI.NET NO PORTO
No Porto, a rede está em fase de implementação: http://guifi.net/Porto
Os primeiros pontos, que ligam o Marquês e ao Alto da Fontinha, estão montados e falta apenas o switch para pôr a bombar o primeiro pedaço de rede da cidade.
Os próximos passos são:
- a consolidação da rede, e
- a tradução da documentação para português.

Siga? Também vai haver bolinhos! Na Casa da Horta (perto da Igreja de São Francisco, na Ribeira), a partir das 15h no domingo, 16 de Dezembro.

Recomendo ainda as seguintes leituras:
* Sobre a guifi.net no Porto, A possibilidade de criar a nossa própria Internet, no Porto24
** ZASF – Zonas Autônomas Sem Fio, de Felipe Fonseca no Desvio, “laboratório de apropriação criativa de tecnologias”
As hackathons não são só para geeks, O que é uma Hackathon (e o que são dados abertos)?Como organizar uma hackathon?, no Global Voices Online

Regresso à Zona 5

Segunda, 29 Outubro, 2012 § 0

«se os pescadores escrevessem poemas os poetas morriam à fome»
Vocação*, Renato Filipe Cardoso

“É como o Sol e o Mar, menina, se for de mais pode matar”, resumia após reflectir maduramente o marido da dona Alice com uma mão pousada no balcão e a outra sobre o pano da mesa, na Barraquinha lá em baixo onde começa o pequeno amontoado de abrigos plantados nesta praia dos caminhos de Santiago. Resolveu um dia ler de uma ponta à outra, contava, a política de privacidade do Facebook. Isso mesmo: “em dois dias, menina, li tudinho”. Parecia-me inverosímil que, a partir daquele lugar, as mãos rudes de sargaço do marido da dona Alice andassem agora metidas nessa coisa da internet, mas confirmei ao receber sinal de wi-fi no telemóvel antes que o cimbalino me chegasse à mesa. A máquina de café ainda estava a aquecer, as velhas desgraças do dia já se folheavam em novos formatos. Franziu o sobrolho a encarar a maquineta prostrada ali à frente no balcão de madeira, “isto é como o Sol e o Mar, faz bem, tudo bem, mas sem cautela, ai que mata, mata.”

Não me livro da internet mesmo que goste de ir para ali para tentar desligar um pouco as fibras ópticas do cérebro, certificar-me com alívio que o mar ainda rebenta à sétima vaga em ondas mais fortes. O alpendre da Barraquinha está na sombra do Pucinho e é dos poucos daquela costa que ainda resistem à modernidade dos inoxes em linhas ergonómicas. Já lá não está nesta época, debruçado no eirado forrado a rede de pesca, o nadador-salvador que olhava o mar com uma bóia circular trajada à volta da cintura – porque “dá bom descanso aos braços” – nem o outro que pedia licença para retirar-se aos seus aposentos antes de descalçar os chinelos, descer os degraus rudimentares e entrar pelo areal adentro, como a espuma espessa do fim de Setembro.

Não indicarei que lugar é este por solidariedade com quem no outro dia apresentava o resultado de um trabalho de documentação elaborado com primor, para a web, sobre lugares desconhecidos e mágicos escondidos ao redor e nas entranhas da cidade do Porto, recusando no entanto qualquer ambição de vir a atrair uma audiência maior (apesar do acaso da divulgação em conferência pública de um website publicamente acessível). Gosto desses lugares nas margens dos nossos territórios onde, sem querermos intervir, devemos tão-só contemplar. Como esta vila de pescadores que partem na noite cerrada: de lá tiro referências que me permitem melhor compreender processos do quotidiano que a vida na cidade deveria, entendo eu, resgatar.

A Zona 5, em permacultura, é a mais distante do nicho familiar harmonioso autónomo resiliente produtivo substancial aromático. Vai lá quem quer dar um salto fora da zona de conforto para observar, investigar, aprender, retirar apenas factos das observações. É onde não se interfere no desenvolvimento natural das relações estabelecidas (embora de lá se retirem ocasionalmente sementes), para depois tentar inclui-las em zonas mais próximas das nossas vivências. Sinto falta do ponto de fuga que este blog também já foi em tempos, e a ele regresso agora.

se os pescadores escrevessem poemas
os poetas morriam à fome.

os poetas alimentam-se de tempestades e são
igualmente viciados no sal da morte prenunciada
a salgada vertigem que precede os pulsos
sanguineamente alongados pela rede pendida

também os poetas precisam de água pelos joelhos
na sua faina
precisam de deitar-se no fundo dos barcos
e baptizar os filhos com nomes de deus
acender-lhes fogaréus de orientação na bruma
e no desespero
nomes esperançados que afastem a tormenta
os nomes que se afastam quando atormenta,
também os poetas vêm tatuar esses nomes bem fundo
nos confins inexoráveis da água

no santuário divino dos peixes que caminham sobre a água
pensam eles poder levar consigo os filhos na morte
ou antes apaziguar diabólicos quereres que lhos morram
gravando a devoção
esculpindo a pureza
exaltando a estética de construção espinal dos deuses
fugindo ao xadrez das camisas: “as águas jogam e ganham”
peixe-mate!

os seus filhos brincam eternamente pela rua lavada
à espera de crescer
mas não — os poetas não envelhecem
nem os pesqueiros se esgotam:
os poetas lançam as suas redes
cuja malha deixa passar as palavras mais pequenas
esperando que se reproduzam e cresçam
para que o poema amadureça
enquanto no mundo se agrava a fome de metáforas

os pescadores têm alma de papel
a paixão impúdica das musas, e nos seus olhos
corre em marés inconstantes a tinta mágica
da translação planetária

e se um dia se lembrassem de escrever poemas
aos pescadores bastar-lhes-ia verter a pele
no silêncio da poesia
que todos os poetas morreriam à fome:
os pescadores escrevem-se tão melhor
e não haveria quem pescasse

*Vocação, Renato Filipe Cardoso

Islândia: Laboratório de Democracia Digital

Domingo, 2 Outubro, 2011 § 3

Depois do colapso económico da Islândia em Outubro de 2008, os cidadãos daquele país desencadearam um processo de mobilização social, muito assente em plataformas digitais, que pode servir de inspiração para outros jardins à beira mal mar plantados. Escrevi sobre as boas práticas de democracia directa, de renúncia a um resgate internacional e de convalescença económica em dois anos – varridas para baixo do tapete da grande mídia em Portugal – no Global Voices Online. Hoje estive aqui a pensar mais concretamente sobre a montagem e concretização deste laboratório digital de democracia participativa…

Em Maio de 2010, os cidadãos de Reykjavik, capital islandesa, chegaram à conclusão que já estavam fartos da política de sempre, e elegeram o então recém-formado “Best Party” (Melhor Partido) para governar a sua cidade. O novo presidente da câmara, Jon Gnarr, é um actor, comediante, e auto-proclamado “anarco-surrealista”. Os seus camaradas de partido são roqueiros punks e artistas, sem qualquer experiência em politiquices. Como é que um grupo destes conseguiu ganhar as eleições e ficar responsável por lidar com o rescaldo de uma das piores crises económicas da história moderna?

A campanha “radical” do Best Party começou com um videoclip musical no YouTube, e rapidamente alastrou-se para o Facebook e blogosfera islandesa. Quando chegou a altura de estabelecer um compromisso mais sério com os cidadãos de Reykjavik, uma semana antes das eleições municipais, foi lançado um website chamado Better Reykjavik (versão multilingue brevemente online), com o intuito de promover abertamente inovação democrática através de “crowdsourcing” de soluções para os problemas da cidade.

O site, independente, foi criado pela organização sem fins lucrativos Citizens Foundation, e durante a campanha eleitoral estava dividido em secções para cada partido, que chamavam os cidadãos à submissão de propostas e à votação de prioridades para a cidade. 10% dos eleitores participaram no processo de definição de cerca de 1000 prioridades e 43% visitaram o site.

O Best Party foi o partido que mais tirou partido da plataforma, com uma equipa dedicada à monitorização das ideias propostas, e acabou por ganhar as eleições. Em 2011, o site foi redesenhado e adaptado para que houvesse continuidade neste novo método de democracia participativa, que pretende alimentar uma maior proximidade entre os cidadãos e o novo governo local. Até onde é que as redes sociais podem a mudar a relação entre os cidadãos e aqueles que formulam as políticas?

Na verdade a plataforma local, à escala da cidade, surgiu depois de um projecto piloto, ainda funcional, que é o site “sombra” (Skugga) do “parlamento” (Alþingi). Através do Skuggaþing, os cidadãos podem interagir com os governantes e levantar questões que considerem proritárias na acção política. O site importa todas as propostas de lei e a maioria dos documentos do site do Alþingi, e disponibiliza ferramentas para a aprovação ou oposição -  em suma, discussão! – de qualquer proposta, e respectivas justificações. Suporta também a submissão de novas propostas de lei pelos cidadãos. O resultado final tem a forma de listas de priodidades divididas por categorias, assim como os melhores argumentos a favor e contra cada prioridade.

O código da plataforma – Open Active Democracy – está disponível online para replicação e desenvolvimento. A ideia base é possibilitar a grupos de pessoas que definam as suas prioridades democráticas e em conjunto descubram quais as ideias mais importantes a serem implementadas pelos seus governos.

No artigo do Global Voices que mencionei no início deste post, escrevi também sobre a preparação da nova constituição islandesa, criada colaborativamente através da internet, e coordenada por um grupo de 25 cidadãos que tinham sido nomeados em Assembleias Nacionais nas quais participaram cerca de 1500 pessoas. A nova constituição islandesa vai a votação no parlamento no mês que começa agora, e a sua discussão foi feita:

através de vídeos no Youtube em tempo real, que mostram os debates do Conselho; fotos no Flickr; pequenas frases no Twitter; no site oficial dos temas (em islandês e em inglês); e no Facebook é que as ideias estão abertas para discussão.

Sendo a Islândia o país europeu com maior penetração de internet – há seis anos atrás 84% dos agregados familiares tinha pelo menos um computador e internet banda larga -, nasce assim, parece, uma nova geração de fazedores de política que não se resigna a pairar sob a nuvem negra economico-política.Não é que o obsoleto modelo de democracia representativa – que põe cada vez mais a descoberto o distanciamento entre os eleitores e os decisores – deixe de existir de repente, mas ao serem aproveitadas novas oportunidades que os mídia emergentes proporcionam, são criados novos espaços para a democracia deliberativa e novos canais para a participação cidadã com o intuito de facilitar as decisões e a definição dos caminhos da governação.

Questões de base podem ser levantas sobre os resultados ideais da adopção destas ferramentas, especialmente no que diz respeito à participação alargada de todos os sectores em sociedades como a portuguesa, na qual muitos, ao contrário dos islandeses, não têm acesso à internet. Sobre este ponto, acredito que se existisse um site “sombra” da freguesia onde eu vivo, com outros métodos de participação disponíveis que não o online – inquéritos porta a porta? envio de propostas por carta ou telefone? – a coisa poderia funcionar. Outra nuance bastante questionável é a legitimidade da “sabedoria das multidões” – foi em Portugal que elegeram um ditador como o maior português de sempre?!

Enfim, olhemos para a Islândia, e do laboratório que tem sido criado, dizem alguns, talvez tenhamos lições a aprender. Reitero a ideia de Platão:

o castigo por não quereres participar na política é acabares governado por pessoas piores do que tu

Este texto recompila uma série de fontes (linkadas acima e/ou citadas abaixo), e foi escrito na preparação de uma sessão sobre Mobilização Social na Era Digital inserida no ciclo Uma Revolução Silenciada – Na Islândia é o povo quem «Mândia» da Livraria Gato Vadio no Porto:

Icelander’s Campaign Is a Joke, Until He’s Elected – New York Times, 26 de Junho de 2010
Iceland brought in from the cold thanks to party of punks and pop stars – Guardian, 19 de Junho de 2011
Open Innovation as Digital Democracy: Emerging Approaches to Collaborative Governance e Reykjavik’s Best Party and radical social media – Derek Lackaff. Elon University
The role of public participation in creating a sustainable development policy at the local level. [.pdf] – Hjalti J. Guðmundsson
Portugal: Citizens Ask Icelanders About Democracy – Global Voices Online, 9 de Setembro de 2011
Tools for Conviviality – Ivan Illich

Devolver a cidade às pessoas

Segunda, 15 Agosto, 2011 § 0

Pelos meus nove e dez anos
Gostava de tocar à campainha dos prédios grandes.
Drrim… drrim… drrim…
Depois, fugia até à esquina, afogueado,
A disfarçar o medo.
Mas às vezes quando tinha mais vontade de viver que de fugir
Voltava para trás e espreitava…
Inquilinos em todos os patamares,
Uns olhando para cima e outros para baixo,
Primeiro rogando pragas ao acaso,
Depois interrogando-se,
Cumprimentando-se tardiamente,
oferecendo-se os serviços,
E dando-se de um certo calor alheio.
Tocar as campainhas…
Fiz isso em muitas ruas.
Era o modo que eu tinha de convocar a cidade
A encontrar-se, a perguntar-se, a dar-se as mãos e dialogar.

«Convocação» de Fernando Sylvan
«Sardinhada Cívica» - No Rules Great Spot - Imagem de Paulo Moreira

«Sardinhada Cívica» - No Rules Great Spot - Imagem de Paulo Moreira

A história ditava assim, que houvera sido naquele dia posto a descoberto o último logradouro do quarteirão de Cedofeita que faltava explorar, com ruínas de granito e jardins imensos por dentro. Os vizinhos do bairro comiam ameixas no descanso da horta, alguns tocavam instrumentos, outros liam à sombra, consertavam bicicletas, projectavam o espaço adoptado com a leveza da cidade que se quer habitável. Respirava-se. As crianças juntavam pauzinhos, que ateariam o lume da sardinhada cívica na Praça de Lisboa. A Assembleia Popular estava marcada para as 18h.
- Seremos mil.

Há palavras de indignação que se esborracham contra as fachadas decrépitas do Porto: Património de Estado ou “Estado do Património”?  E  a cidade é convocada, a debater o seu lugar. Eis a proposta do colectivo “Esta é a minha cidade?”, inspirada no mote inscrito num dos muros da demolida Praça de Lisboa – No rules, great spot.

Um concurso que procura ideias e propostas capazes de compreender a dinâmica deste espaço no contexto em transformação da cidade, mas simultaneamente provocar um debate intensivo e extensivo em torno da reabilitação urbana enquanto projecto partilhado e informado, participado e discutido, envolvendo a comunidade e articulando aqueles que sempre foram os agentes fundamentais de construção e problematização da cidade – os arquitectos.

Moreira & Moreira convidam à Sardinhada Cívica: