Mil e uma frases que há para explicar o símbolo em que a ES.COL.A do Alto da Fontinha se tornou. Gostei da métrica da que dá título a este post, nem tanto da posição antagónica que pretende marcar. Pela métrica e pela alma, pintei-a – à frase – com os dedos numa faixa branca, entre o jardim do Largo da Fontinha, e outros que existem no avesso dos quarteirões da Baixa do Porto. São muitos, estão esquecidos.

Foto de Nuno Magalhães no Espaço Compasso
À procura de um sentido para a sensibilidade que se eriçou, não só em mim – éramos 100, 200, seremos mais – vai aqui um esboço de resposta a algumas questões levantadas no seguimento do despejo violento da ES.COL.A pela Câmara Municipal do Porto: o que é um ESpaço COLectivo Auto-gestionado adoptado por cidadãos da cidade que também é minha? Em que resulta a provocação do emparedamento de tal espaço pelo poder, amedrontado pela espontaneidade “voluntarista” de quem se propõe a devolvê-lo à comunidade?
O concreto da Fontinha que me toca
Partindo da crueza do concreto, o que me traz à ES.COL.A é um braço de nome Transparência do Hacklaviva, um colectivo de “geeks” que quer tornar mais visível a estrutura da sociedade em que vivemos, usando “o software livre ao serviço da cidadania”. Um conjunto de “gente diferenciada” que espontaneamente constrói coisas como o DespesaPublica.com, para dar a conhecer a todos os cidadãos – até mesmo aos jornalistas e aos políticos – de que forma é que o governo português gasta dinheiro. Gente boa, desperta e especializada que já percebeu que há mais vida para além dos fins lucrativos do trabalho.
Toca-me também, nesta história da Fontinha, o concreto do “bairro”, esquecido, precário, devoluto, envelhecido, inspirador da rubrica Porto-Morto-Vivo que alimentei a soluços no meu blog anterior, quando vivi no Palácio Olivença da Rua do Bonjardim, logo à frente do Espaço Musas. Foram tempos de despertar para a cidadania* aqueles em que habitei aquela zona da cidade, enquanto tentava o apoio da Câmara para a recuperação do edifício.

* Nota: a cidadania surge primeiro dentro de nós, e estende-se depois para o que está à nossa volta, o espaço físico e humano em que vivemos. Foto de Pedro Ferreira
É que, olhando em redor, o Porto está cheio do que resta de edifícios entregues à degradação. O “sistema”, por sua vez, não se dispõe propriamente a apoiar, com os seus/”srus” programas publico-privados, a reabilitação da zona de intervenção prioritária do Porto. A experiência traumática que vivi, deixa-me céptica agora quando leio, através do Twitter, que a Câmara, em Assembleia Municipal, diz que “aceita analisar projectos para o local” da ES.COL.A. É que os contornos desses projectos, e processos, se bem me lembro, somente servem ora para cortar os pulsos, ora para escrever poemas burocráticos.
Os perigos da auto-gestão
Quão perigosa é a concretização de um ideal de sociedade (local, comunitária) não alienada do espaço, do outro, portanto, humana? Será perigoso estar disponível para tornar a urbe mais humana? Ter tempo para dedicar a actividades não comerciais, sem fins lucrativos, sem dress code? Reabilitar o que foi vandalizado, sem “interesses”, só porque sim, amedronta alguém?
Neste espaço colectivo auto-gestionado (ou fora do físico dele, porque já estava emparedado na altura), tive o privilégio de participar no momento mais bonito de democracia que até então tinha vivido. Participei na arrepiante Assembleia Popular pós-desocupação da ES.COL.A que aconteceu na semana passada, no Largo da Fontinha. Quase um ano depois da morte do meu Porto-Vivo, reencontrei os vizinhos do bairro do Bonjardim, ali, envolvidos, comprometidos na procura de uma retoma consensual das actividades que tomavam lugar há já um mês. Vi cerca de 100 pessoas a analisarem colectivamente uma problemática que nos toca a todos, a tomarem decisões em consenso, a desenharem sobre o granito do Largo uma linha de acção.

BD de José Smith Vargas
A provocação do emparedamento da ES.COL.A à bruta pela polícia, ordenada pelo poder político do Porto – talvez amedrontado pela espontaneidade “voluntarista” de quem se propôs a devolvê-la ao bairro – deflagrou os ânimos_animou os ritmos_ritmou as assembleias, e por aí em diante em cadeia, que só temos a agradecer a quem nos dá a oportunidade de reflectir sobre todas estas questões, agora assim escancaradas na cara de tanta gente. E seremos mais.
Não é só na Fontinha. O Porto está cheio de quarteirões por dentro quando se olha o lugar de outra perspectiva.
Enquanto isso, as actividades da ES.COL.A continuam no Largo da Fontinha.
Acompanhem o blog e a página no Facebook da ES.COL.A, conheçam a história daquela zona da cidade.
Enquanto não saem à rua para experimentar este sentido de liberdade e cidadania, sugiro a leitura do manifesto do Júlio do Carmo Gomes, do Gato Vadio, a análise do José Soeiro, deputado do Bloco de Esquerda, e o contra-ponto de Tiago Fernandes, militante do PSD, que relatou também o decorrer da assembleia municipal pelo Twitter (@taf), juntamente com a Catarina Martins (@catarina_mart), do BE, e o Vitor Silva (@vitorsilva), do Hacklaviva.