Maputo

Quinta, 23 Maio, 2013 § 0

Quando cai o ocaso outonal entra o rosa num céu recortado em prédios de dez, quinze, trinta e três andares nesta cidade irrompida em cimento com hora de ponta agitada nas avenidas de quatro, seis, oito faixas ladeadas por neons e chapas ao som da marrabenta que vibra nas alturas.

maputo - ho chi minh

ho chi minh com lenine

Nos passeios imundos de terra, cascalho, plástico, sobram sapatos sem par meticulosamente expostos em fila indiana – não quer dizer que exista uma ordem para entrar ou chegar a algum lugar. A-fe-nal, faltam os pés e as pernas,
- não é assim mesmo?
- um, uhm.
- é não é?

Uhm. Não quer vender no mercado os sapatos, lá onde se dança sem causa ou propósito,
- Papai, já ‘tá um pouco grosso, pois não?
- um, uhm.
- é não é?

Uhm. Mas mexe e abana a cintura do alto do seu cabelo grisalho. Há quem cante e eu oiço do nono andar da torre onde estou quando cai o ocaso rosado e entra mansa a noite em Maputo.

Invicta chuva cai

Quinta, 28 Março, 2013 § 0

Invicta, a chuva cai sem dar tréguas a quem quer desertar do estado de hibernação à sombra de dias mais plenos. Veio a praga, o piolho e a peste, ao pão chegou o mofo e há bolor nas paredes. As ideias entorpeceram como os canos do logradouro. Ó vizinha, tens soda cáustica? [1], é que ainda há-de virar o tempo – virá esse da abundância frugal – mas agora abriga-te, irmã, por baixo das lãs feitas em remendos.

A perda anda à espreita e esbarra em nós de tez baça, amarelecida. E como se não bastasse, também se resignou a poesia: “Fugir é melhor que prometer / esperança em melhores dias” [2]. O imaginário faz-se de lugares distantes e uma dose de maresia. Bebe mais da inspiração transoceânica do que da realidade continental que nos tem reféns na periferia.


Poucos somos e já é tarde, mas o princípio cerceia nas delongas dialécticas de café – uma amiga galega contou que nunca tinha compreendido Saramago, «em toda a sua extensão», até demorar-se por aqui uns meses nas lides da Institucional Burocracia.

A chuva continua a pingar no balde do vão de escadas. São umas a seguir às outras, é a recessão em camadas. Já pensava em nós sem saber Clarice, “a alma aqui não faz sombra no chão” [3]

”É urgente: se não for povoada, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la. E se acontecer, será demais: não haverá lugar para as pessoas. Elas sentir-se-ão tacitamente expulsas.”

Portugal, só resta “seguir para a tua alma por outros caminhos“. Por fazer fica o resgate à cama em que adormeces, tiritante e ausente com panos de pedras quentes.

Trocar tostões

Sábado, 15 Dezembro, 2012 § 0

Começa a dar frutos a Oficina de Moeda Alternativa que organizei com a minha homónima da Horta-lá! em três espaços alternativos no Porto, em Novembro: hoje, na 3ª Feira de Trocas das Virtudes nasce a VIRTAS, a nova moeda alternativa de apoio às trocas e serviços.

compazine #2 / espaço de intervenção: moeda alternativa

moeda alternativa na rubrica espaço de intervenção da compazine #2. (clicar na imagem para ver a compazine de dezembro de 2012 completa.)

Para facilitar a entrada da moeda em circulação, haverá um “infopoint” onde serão prestados esclarecimentos ao longo do evento, e onde quem queira pode inscrever-se:

A Virtas pode ser usada em qualquer edição da Feira de Trocas das Virtudes ou noutros espaço aderentes.

A adesão pressupõe a disponibilidade de produtos ou serviços.

Cada pessoa recebe o total de moedas sociais no valor de 150 Virtas (uma nota de 50, duas de 20, duas de 10, quatro de 5, cinco de 2, e dez de 1).

O valor dos objectos, serviços e saberes são determinados pela pessoa que os põe à troca; o intercâmbio é negociado pelos interessados. É necessária a inscrição.

A Feira de trocas das Virtudes pretende ser um espaço livre e cooperativo, onde as pessoas se reúnem para trocar bens e serviços sem utilizar dinheiro. Podes trazer livros e trocar por roupas ou oferecer um trabalho de carpintaria por um corte de cabelo. Apesar de possibilitar a satisfação de algumas necessidades individuais, esta feira não é um evento de caridade mas antes de solidariedade. O objectivo passa por criar comunidades que disponibilizem produtos e competências, sem pensar no lucro ou na competição, valorizando o saber e a criatividade. Para além disto, a feira também será um espaço de convívio e aprendizagem, com música, conversas, workshops, copos e morfes, etc.

Acontece todos os terceiros sábados do mês, no Passeio das Virtudes, ou se o tempo não ajudar, no Rancho Folclórico do Douro Litoral, na Calçada da Virtudes nº 2.

“Mas afinal o que é que tu fazes?”

Quinta, 13 Dezembro, 2012 § 0

Um post publicado hoje no Global Voices ilustra os fluxos que correm nos bastidores da nossa redacção global, exclusivamente virtual, e composta por mais de 700 colaboradores que diariamente atravessam fronteiras, trespassam fusos-horários e eliminam barreiras linguísticas e culturais para que as melhores histórias reportadas por cidadãos comuns nos meandros das redes sociais e plataformas online ganhem maior visibilidade para o resto do mundo.

O exemplo dado refere-se precisamente à equipa de língua portuguesa que coordeno no Global Voices, por isso tomo a liberdade de acrescentar um ponto, e o meu sotaque à história.  Ontem à noite perguntaram-me outra vez “mas o que é que tu fazes exactamente?”, e voilá, a seguinte explicação de como um artigo se tornou realidade mostra como os esforços coordenados de várias pessoas se combinam para fazer do trabalho do Global Voices algo tão único.

23 de Outubro de 2012: Chego de pantufas ao local de trabalho (a minha sala), e enquanto dou o primeiro gole de café, leio um email da Janet, em Londres, a avisar-me que de madrugada (já eram 9 horas, mas eu assumo o fuso horário do Brasil) escreveu uma notícia muito breve em inglês sobre a carta aberta lançada na noite anterior por um índio da comunidade Guarani Kaiowá, do estado do Mato Grosso do Sul, Brasil. Entretanto o João Miguel, em Fortaleza, já tinha também enviado um email para o grupo de discussão da equipa de língua portuguesa a dar o alerta sobre este caso relacionado com o segundo maior grupo étnico indígena do Brasil, que enfrenta mais uma ameaça de despejo das suas terras ancestrais. Seis outros membros do grupo reagem, a partir das suas casas, universidades ou locais de trabalho, em cinco cidades diferentes do Brasil, Portugal e Espanha. Em conjunto começamos a trabalhar um artigo e a pesquisar sobre a notícia.

24 de Outubro de 2012: Eu, enquanto editora dos países de língua portuguesa, publico o artigo em Português em colaboração com o Diego, a Elisa, o João Miguel, o Luís e o Rapha.

25 de Outubro de 2012: Antes de me meter no comboio rumo a Sul, para participar na Conferência Cultura Pirata na Sociedade de Informação, confirmo que a Janet pode começar a tradução do texto para o inglês neste dia. A editora multilíngue, Paula, em Londres, e o co-editor do Global Voices em Português, João Miguel, em Fortaleza, dão apoio à legendagem do vídeo incluído no texto.  Já à noite, a versão em inglês é enviada para a lista de discussão dos sub-editores, e é adoptada pelo Kevin, que está em Melbourne, na Austrália, onde o Sol já nasceu. O Kevin faz a revisão do artigo, e publica-o no site do Global Voices em inglês.

Em poucas horas, nove pessoas em três continentes, cinco países e sete cidades colaboraram para amplificar “O grito da resistência Guarani Kaiowá” para o mundo em português e em inglês.

26 de Outubro de 2012: A Inês traduz o artigo para francês.

31 de Outubro de 2012: A Cristina, o Mario e a Gabriela traduzem o artigo para catalão, alemão e espanhol, respectivamente.

2 de Novembro de 2012: A Giulia traduz o artigo para italiano.

Neste preciso momento, outras equipas do Global Voices estão a fazer exactamente a mesma coisa: atravessam fronteiras, trespassam fusos-horários e idiomas, monitorizam a liberdade de expressão online, dão apoio a novos grupos que queiram juntar-se à conversa global, sempre com o objectivo primordial de dar voz e trazer momentum a notícias importantes que a mídia mainstream não quer ou não pode cobrir.

Manter estas dinâmicas é uma tarefa tão intensiva quanto apaixonante e guia-se sobretudo pela urgência que o colectivo sente na prossecução da missão do Global Voices.

Se o mundo fala, nós procuramos ouvir e contextualizar para além do frenesim cibernético. A nossa maior subversão é servir graciosamente de complemento à “grande mídia” em vez de dedicar energia a criticá-la. O que distingue a nossa forma de trabalho descentralizado é o laço global criado, valorizando a colaboração em detrimento da competição tantas vezes instituída em organizações ao “serviço do bem”.

É graças ao financiamento que recebemos de fundações que nos têm apoiado ao longo dos anos que continuamos a fazer o que fazemos. Para nos mantermos independentes, livres e sustentáveis, também dependemos do generoso apoio de amigos e leitores como tu. O teu donativo ajuda a cobrir custos de servidor, administrativos e os nossos programas de micro-bolsas, para além da equipa do Global Voices :)

Unir os pontos

Terça, 11 Dezembro, 2012 § 0

“A Internet disponibilizou um espaço seguro onde as redes de indignação e de esperança se ligam. As redes formadas no ciberespaço estendem o seu alcance ao espaço urbano.”

Manuel Castells

“Quando não há Internet, cria a tua própria rede” *

A ideia é criar uma rede de telecomunicações local, autónoma, livre, neutra e aberta. Parece utopia, mas a Guifi.net já funciona – e bem! – em muitos outros lugares da Península Ibérica. Desde há pouco mais de um ano, um pequeno grupo de entusiastas no Porto esteve a adiantar serviço na implementação desta rede comunitária para a cidade. Já há nós funcionais, parte da interface está implementada, e os módulos base estão prontos a receber mais informação. Queremos ver em 2013 a guifi.net a bombar cá no Porto! O próximo encontro é no domingo, 16 de Dezembro, a partir das 15h na Casa da Horta. Não é preciso conhecimentos especiais para participar: é só trazer o portátil e vontade de traduzir em colectivo alguns textos e documentos que explicam o que é esta rede e como funciona.

Chamamos-lhe Hackathon de tradução para português, mas mete bolos e comunidade ao barulho!

Dia 16 há hackathon de tradução da guifi.net, o projeto de redes wireless comunitárias que está a arrancar no Porto. Vai ser um belo serão na Casa da Horta, com bolos, chá, café e cerveja artesanal, para dar energia e combater o frio :)

"Dia 16 há hackathon de tradução da guifi.net, o projeto de redes wireless comunitárias que está a arrancar no Porto. Vai ser um belo serão na Casa da Horta, com bolos, chá, café e cerveja artesanal, para dar energia e combater o frio :) "

“Em todo o mundo, a tensão entre a liberdade na rede e as políticas de controle usando pretextos diversos – pirataria, pedofilia, etc. – chama a atenção para uma questão hipotética mas ainda assim presente: o que acontece quando alguém puxar a tomada da internet” **

GUIFI.NET?
Guifi.net é uma rede comunitária de telecomunicações Livre, Aberta e Neutra. Usa um acordo de interconexão onde cada um ao ligar-se passa a formar parte da rede, obtém conectividade, e torna-se seu proprietário. Segue a filosofia do software livre e fomenta o seu uso e desenvolvimento. [Para saber mais, os slides da apresentação da Guifi.net no Future Places, em Outubro de 2012, pode ser consultada aqui: http://bit.ly/10CXsIg]

PARA QUE SERVE?
A Guifi.net pretende interligar os cidadãos independentemente dos seus recursos económicos e da zona em que residem, reduzindo assim o fosso digital. A rede serve para partilhar conteúdos e recursos entre os elementos de cada rede, paralelamente à Internet. Os serviços associados à rede podem ser muitos, como por exemplo alojar um servidor com filmes para descarregar entre as pessoas com conectividade à rede ou partilhar net.

"O nosso objectivo: unir as ilhas". Flyer de comemoração do 1000º nó, em 2006.

"O nosso objectivo: unir as ilhas". Flyer de comemoração do 1000º nó, em 2006.

QUAIS AS VANTAGENS?
Um modelo mais justo
Contribuis ao manter a rede actualizada e não pagas pelo seu uso
Autonomia
És proprietário da rede. Não dependes das operadoras tradicionais
Mais velocidade
A tua equipa é que impõe os limites

COMO FUNCIONA?
Graças à disponibilidade de equipamentos e estruturas, tornou-se possível considerar a ideia de redes comunitárias de baixo custo, auto-organizadas e geridas localmente.
1. Entra na rede
2. Constrói a tua infraestrutura
3. Conecta-te ao teu vizinho
Mais informação: http://guifi.net/es/trespassos

DE ONDE VEM?
Teve origem no Estado Espanhol, na Catalunha, e tem crescido amplamente, espalhando-se hoje por mais de 18.000 nós operacionais na Península Ibérica. É a primeira operadora não comercial de telecomunicações reconhecida.

GUIFI.NET NO PORTO
No Porto, a rede está em fase de implementação: http://guifi.net/Porto
Os primeiros pontos, que ligam o Marquês e ao Alto da Fontinha, estão montados e falta apenas o switch para pôr a bombar o primeiro pedaço de rede da cidade.
Os próximos passos são:
- a consolidação da rede, e
- a tradução da documentação para português.

Siga? Também vai haver bolinhos! Na Casa da Horta (perto da Igreja de São Francisco, na Ribeira), a partir das 15h no domingo, 16 de Dezembro.

Recomendo ainda as seguintes leituras:
* Sobre a guifi.net no Porto, A possibilidade de criar a nossa própria Internet, no Porto24
** ZASF – Zonas Autônomas Sem Fio, de Felipe Fonseca no Desvio, “laboratório de apropriação criativa de tecnologias”
As hackathons não são só para geeks, O que é uma Hackathon (e o que são dados abertos)?Como organizar uma hackathon?, no Global Voices Online

Regresso à Zona 5

Segunda, 29 Outubro, 2012 § 0

«se os pescadores escrevessem poemas os poetas morriam à fome»
Vocação*, Renato Filipe Cardoso

“É como o Sol e o Mar, menina, se for de mais pode matar”, resumia após reflectir maduramente o marido da dona Alice com uma mão pousada no balcão e a outra sobre o pano da mesa, na Barraquinha lá em baixo onde começa o pequeno amontoado de abrigos plantados nesta praia dos caminhos de Santiago. Resolveu um dia ler de uma ponta à outra, contava, a política de privacidade do Facebook. Isso mesmo: “em dois dias, menina, li tudinho”. Parecia-me inverosímil que, a partir daquele lugar, as mãos rudes de sargaço do marido da dona Alice andassem agora metidas nessa coisa da internet, mas confirmei ao receber sinal de wi-fi no telemóvel antes que o cimbalino me chegasse à mesa. A máquina de café ainda estava a aquecer, as velhas desgraças do dia já se folheavam em novos formatos. Franziu o sobrolho a encarar a maquineta prostrada ali à frente no balcão de madeira, “isto é como o Sol e o Mar, faz bem, tudo bem, mas sem cautela, ai que mata, mata.”

Não me livro da internet mesmo que goste de ir para ali para tentar desligar um pouco as fibras ópticas do cérebro, certificar-me com alívio que o mar ainda rebenta à sétima vaga em ondas mais fortes. O alpendre da Barraquinha está na sombra do Pucinho e é dos poucos daquela costa que ainda resistem à modernidade dos inoxes em linhas ergonómicas. Já lá não está nesta época, debruçado no eirado forrado a rede de pesca, o nadador-salvador que olhava o mar com uma bóia circular trajada à volta da cintura – porque “dá bom descanso aos braços” – nem o outro que pedia licença para retirar-se aos seus aposentos antes de descalçar os chinelos, descer os degraus rudimentares e entrar pelo areal adentro, como a espuma espessa do fim de Setembro.

Não indicarei que lugar é este por solidariedade com quem no outro dia apresentava o resultado de um trabalho de documentação elaborado com primor, para a web, sobre lugares desconhecidos e mágicos escondidos ao redor e nas entranhas da cidade do Porto, recusando no entanto qualquer ambição de vir a atrair uma audiência maior (apesar do acaso da divulgação em conferência pública de um website publicamente acessível). Gosto desses lugares nas margens dos nossos territórios onde, sem querermos intervir, devemos tão-só contemplar. Como esta vila de pescadores que partem na noite cerrada: de lá tiro referências que me permitem melhor compreender processos do quotidiano que a vida na cidade deveria, entendo eu, resgatar.

A Zona 5, em permacultura, é a mais distante do nicho familiar harmonioso autónomo resiliente produtivo substancial aromático. Vai lá quem quer dar um salto fora da zona de conforto para observar, investigar, aprender, retirar apenas factos das observações. É onde não se interfere no desenvolvimento natural das relações estabelecidas (embora de lá se retirem ocasionalmente sementes), para depois tentar inclui-las em zonas mais próximas das nossas vivências. Sinto falta do ponto de fuga que este blog também já foi em tempos, e a ele regresso agora.

se os pescadores escrevessem poemas
os poetas morriam à fome.

os poetas alimentam-se de tempestades e são
igualmente viciados no sal da morte prenunciada
a salgada vertigem que precede os pulsos
sanguineamente alongados pela rede pendida

também os poetas precisam de água pelos joelhos
na sua faina
precisam de deitar-se no fundo dos barcos
e baptizar os filhos com nomes de deus
acender-lhes fogaréus de orientação na bruma
e no desespero
nomes esperançados que afastem a tormenta
os nomes que se afastam quando atormenta,
também os poetas vêm tatuar esses nomes bem fundo
nos confins inexoráveis da água

no santuário divino dos peixes que caminham sobre a água
pensam eles poder levar consigo os filhos na morte
ou antes apaziguar diabólicos quereres que lhos morram
gravando a devoção
esculpindo a pureza
exaltando a estética de construção espinal dos deuses
fugindo ao xadrez das camisas: “as águas jogam e ganham”
peixe-mate!

os seus filhos brincam eternamente pela rua lavada
à espera de crescer
mas não — os poetas não envelhecem
nem os pesqueiros se esgotam:
os poetas lançam as suas redes
cuja malha deixa passar as palavras mais pequenas
esperando que se reproduzam e cresçam
para que o poema amadureça
enquanto no mundo se agrava a fome de metáforas

os pescadores têm alma de papel
a paixão impúdica das musas, e nos seus olhos
corre em marés inconstantes a tinta mágica
da translação planetária

e se um dia se lembrassem de escrever poemas
aos pescadores bastar-lhes-ia verter a pele
no silêncio da poesia
que todos os poetas morreriam à fome:
os pescadores escrevem-se tão melhor
e não haveria quem pescasse

*Vocação, Renato Filipe Cardoso

Islândia: Laboratório de Democracia Digital

Domingo, 2 Outubro, 2011 § 3

Depois do colapso económico da Islândia em Outubro de 2008, os cidadãos daquele país desencadearam um processo de mobilização social, muito assente em plataformas digitais, que pode servir de inspiração para outros jardins à beira mal mar plantados. Escrevi sobre as boas práticas de democracia directa, de renúncia a um resgate internacional e de convalescença económica em dois anos – varridas para baixo do tapete da grande mídia em Portugal – no Global Voices Online. Hoje estive aqui a pensar mais concretamente sobre a montagem e concretização deste laboratório digital de democracia participativa…

Em Maio de 2010, os cidadãos de Reykjavik, capital islandesa, chegaram à conclusão que já estavam fartos da política de sempre, e elegeram o então recém-formado “Best Party” (Melhor Partido) para governar a sua cidade. O novo presidente da câmara, Jon Gnarr, é um actor, comediante, e auto-proclamado “anarco-surrealista”. Os seus camaradas de partido são roqueiros punks e artistas, sem qualquer experiência em politiquices. Como é que um grupo destes conseguiu ganhar as eleições e ficar responsável por lidar com o rescaldo de uma das piores crises económicas da história moderna?

A campanha “radical” do Best Party começou com um videoclip musical no YouTube, e rapidamente alastrou-se para o Facebook e blogosfera islandesa. Quando chegou a altura de estabelecer um compromisso mais sério com os cidadãos de Reykjavik, uma semana antes das eleições municipais, foi lançado um website chamado Better Reykjavik (versão multilingue brevemente online), com o intuito de promover abertamente inovação democrática através de “crowdsourcing” de soluções para os problemas da cidade.

O site, independente, foi criado pela organização sem fins lucrativos Citizens Foundation, e durante a campanha eleitoral estava dividido em secções para cada partido, que chamavam os cidadãos à submissão de propostas e à votação de prioridades para a cidade. 10% dos eleitores participaram no processo de definição de cerca de 1000 prioridades e 43% visitaram o site.

O Best Party foi o partido que mais tirou partido da plataforma, com uma equipa dedicada à monitorização das ideias propostas, e acabou por ganhar as eleições. Em 2011, o site foi redesenhado e adaptado para que houvesse continuidade neste novo método de democracia participativa, que pretende alimentar uma maior proximidade entre os cidadãos e o novo governo local. Até onde é que as redes sociais podem a mudar a relação entre os cidadãos e aqueles que formulam as políticas?

Na verdade a plataforma local, à escala da cidade, surgiu depois de um projecto piloto, ainda funcional, que é o site “sombra” (Skugga) do “parlamento” (Alþingi). Através do Skuggaþing, os cidadãos podem interagir com os governantes e levantar questões que considerem proritárias na acção política. O site importa todas as propostas de lei e a maioria dos documentos do site do Alþingi, e disponibiliza ferramentas para a aprovação ou oposição -  em suma, discussão! – de qualquer proposta, e respectivas justificações. Suporta também a submissão de novas propostas de lei pelos cidadãos. O resultado final tem a forma de listas de priodidades divididas por categorias, assim como os melhores argumentos a favor e contra cada prioridade.

O código da plataforma – Open Active Democracy – está disponível online para replicação e desenvolvimento. A ideia base é possibilitar a grupos de pessoas que definam as suas prioridades democráticas e em conjunto descubram quais as ideias mais importantes a serem implementadas pelos seus governos.

No artigo do Global Voices que mencionei no início deste post, escrevi também sobre a preparação da nova constituição islandesa, criada colaborativamente através da internet, e coordenada por um grupo de 25 cidadãos que tinham sido nomeados em Assembleias Nacionais nas quais participaram cerca de 1500 pessoas. A nova constituição islandesa vai a votação no parlamento no mês que começa agora, e a sua discussão foi feita:

através de vídeos no Youtube em tempo real, que mostram os debates do Conselho; fotos no Flickr; pequenas frases no Twitter; no site oficial dos temas (em islandês e em inglês); e no Facebook é que as ideias estão abertas para discussão.

Sendo a Islândia o país europeu com maior penetração de internet – há seis anos atrás 84% dos agregados familiares tinha pelo menos um computador e internet banda larga -, nasce assim, parece, uma nova geração de fazedores de política que não se resigna a pairar sob a nuvem negra economico-política.Não é que o obsoleto modelo de democracia representativa – que põe cada vez mais a descoberto o distanciamento entre os eleitores e os decisores – deixe de existir de repente, mas ao serem aproveitadas novas oportunidades que os mídia emergentes proporcionam, são criados novos espaços para a democracia deliberativa e novos canais para a participação cidadã com o intuito de facilitar as decisões e a definição dos caminhos da governação.

Questões de base podem ser levantas sobre os resultados ideais da adopção destas ferramentas, especialmente no que diz respeito à participação alargada de todos os sectores em sociedades como a portuguesa, na qual muitos, ao contrário dos islandeses, não têm acesso à internet. Sobre este ponto, acredito que se existisse um site “sombra” da freguesia onde eu vivo, com outros métodos de participação disponíveis que não o online – inquéritos porta a porta? envio de propostas por carta ou telefone? – a coisa poderia funcionar. Outra nuance bastante questionável é a legitimidade da “sabedoria das multidões” – foi em Portugal que elegeram um ditador como o maior português de sempre?!

Enfim, olhemos para a Islândia, e do laboratório que tem sido criado, dizem alguns, talvez tenhamos lições a aprender. Reitero a ideia de Platão:

o castigo por não quereres participar na política é acabares governado por pessoas piores do que tu

Este texto recompila uma série de fontes (linkadas acima e/ou citadas abaixo), e foi escrito na preparação de uma sessão sobre Mobilização Social na Era Digital inserida no ciclo Uma Revolução Silenciada – Na Islândia é o povo quem «Mândia» da Livraria Gato Vadio no Porto:

Icelander’s Campaign Is a Joke, Until He’s Elected – New York Times, 26 de Junho de 2010
Iceland brought in from the cold thanks to party of punks and pop stars – Guardian, 19 de Junho de 2011
Open Innovation as Digital Democracy: Emerging Approaches to Collaborative Governance e Reykjavik’s Best Party and radical social media – Derek Lackaff. Elon University
The role of public participation in creating a sustainable development policy at the local level. [.pdf] – Hjalti J. Guðmundsson
Portugal: Citizens Ask Icelanders About Democracy – Global Voices Online, 9 de Setembro de 2011
Tools for Conviviality – Ivan Illich

Devolver a cidade às pessoas

Segunda, 15 Agosto, 2011 § 0

Pelos meus nove e dez anos
Gostava de tocar à campainha dos prédios grandes.
Drrim… drrim… drrim…
Depois, fugia até à esquina, afogueado,
A disfarçar o medo.
Mas às vezes quando tinha mais vontade de viver que de fugir
Voltava para trás e espreitava…
Inquilinos em todos os patamares,
Uns olhando para cima e outros para baixo,
Primeiro rogando pragas ao acaso,
Depois interrogando-se,
Cumprimentando-se tardiamente,
oferecendo-se os serviços,
E dando-se de um certo calor alheio.
Tocar as campainhas…
Fiz isso em muitas ruas.
Era o modo que eu tinha de convocar a cidade
A encontrar-se, a perguntar-se, a dar-se as mãos e dialogar.

«Convocação» de Fernando Sylvan
«Sardinhada Cívica» - No Rules Great Spot - Imagem de Paulo Moreira

«Sardinhada Cívica» - No Rules Great Spot - Imagem de Paulo Moreira

A história ditava assim, que houvera sido naquele dia posto a descoberto o último logradouro do quarteirão de Cedofeita que faltava explorar, com ruínas de granito e jardins imensos por dentro. Os vizinhos do bairro comiam ameixas no descanso da horta, alguns tocavam instrumentos, outros liam à sombra, consertavam bicicletas, projectavam o espaço adoptado com a leveza da cidade que se quer habitável. Respirava-se. As crianças juntavam pauzinhos, que ateariam o lume da sardinhada cívica na Praça de Lisboa. A Assembleia Popular estava marcada para as 18h.
- Seremos mil.

Há palavras de indignação que se esborracham contra as fachadas decrépitas do Porto: Património de Estado ou “Estado do Património”?  E  a cidade é convocada, a debater o seu lugar. Eis a proposta do colectivo “Esta é a minha cidade?”, inspirada no mote inscrito num dos muros da demolida Praça de Lisboa – No rules, great spot.

Um concurso que procura ideias e propostas capazes de compreender a dinâmica deste espaço no contexto em transformação da cidade, mas simultaneamente provocar um debate intensivo e extensivo em torno da reabilitação urbana enquanto projecto partilhado e informado, participado e discutido, envolvendo a comunidade e articulando aqueles que sempre foram os agentes fundamentais de construção e problematização da cidade – os arquitectos.

Moreira & Moreira convidam à Sardinhada Cívica:

O Turco de Díli

Terça, 31 Maio, 2011 § 0

O turco de Díli expõe medronhos em fileira, paus de canela alinhados, malaguetas amiúde, cabaças seriadas, candeeiros extravagantes, diáfanos olhos azuis, pendentes por toda a parte. O turco de Díli patenteou o pão mais exótico de Timor Leste, e salpicou-o de sementes de sésamo, por cima de tais ladeado de xícaras e bules de prata delicadamente entrelaçados num balcão rude de aço, de alçado mapeado, em locais de culto da península Anatólia.

Kebab Club: +670 729 71 21. Foto de Brígida Soares

Kebab Club: +670 729 71 21. Foto de Brígida Soares

O dono do turco de Díli impugna a cada hora o forno infernal da patente, e em viril cadência de tabuleiros, permite-se a dominância da vassoura mais à mão, que nele desperta um vagaroso grito Presleyteriano “on_ly yo-u can make all this world seem right”. Interrompe o clamor, nem tanto a emoção, limpa o suor da testa, e em momento solene faz vénia e floreados a Atatürk, o revolucionário prostrado na parede. Reduz-se a vassalo, que “morreria por ele, por tanto amá-lo”.

Só uma coisa me surpreende no turco de Díli, um relógio de horas trocadas, como se devesse registar cada surpresa, sem já saber nem de longe o que é isso, de não estar simplesmente no lugar. Melhor que prender-lhe os ponteiros, aceitar os minutos parados, ou recuar no predicado do tempo, troquem-se as voltas, alternem-se as horas, em fundo de última ceia. O relógio do turco de Díli faz-me sentir sã.

Pensando atrás, chegava lá vinda do Jardim da Paz. O pôr-do-sol do pontão de Lecidere, destino de trilhos em betão esburacado. “Explodem bombas, ou o quê?” Pés bem metidos na lixeira antes de mergulhar em água de côco, que bebia por uma palhinha, à volta de moscas de peixe fresco que dançavam a luta de galos, do dominó, da bisca, das catanas, em riste, e zumbiam, então, conta, diz lá, põe o tom de que outro não há igual, esse teu veludo tropical, conta-me cada desenho do planalto onde lá vives.

Este RIO que nos BANHA não passa na FONTINHA

Terça, 17 Maio, 2011 § 1

Mil e uma frases que há para explicar o símbolo em que a ES.COL.A do Alto da Fontinha se tornou. Gostei da métrica da que dá título a este post, nem tanto da posição antagónica que pretende marcar. Pela métrica e pela alma, pintei-a – à frase – com os dedos numa faixa branca, entre o jardim do Largo da Fontinha, e outros que existem no avesso dos quarteirões da Baixa do Porto. São muitos, estão esquecidos.

Foto de Nuno Magalhães no Espaço Compasso

Foto de Nuno Magalhães no Espaço Compasso

À procura de um sentido para a sensibilidade que se eriçou, não só em mim – éramos 100, 200, seremos mais – vai aqui um esboço de resposta a algumas questões levantadas no seguimento do despejo violento da ES.COL.A pela Câmara Municipal do Porto: o que é um ESpaço COLectivo Auto-gestionado adoptado por cidadãos da cidade que também é minha? Em que resulta a provocação do emparedamento de tal espaço pelo poder, amedrontado pela espontaneidade “voluntarista” de quem se propõe a devolvê-lo à comunidade?

O concreto da Fontinha que me toca

Partindo da crueza do concreto, o que me traz à ES.COL.A é um braço de nome Transparência do Hacklaviva, um colectivo de “geeks” que quer tornar mais visível a estrutura da sociedade em que vivemos, usando “o software livre ao serviço da cidadania”. Um conjunto de “gente diferenciada” que espontaneamente constrói coisas como o DespesaPublica.com, para dar a conhecer a todos os cidadãos – até mesmo aos jornalistas e aos políticos – de que forma é que o governo português gasta dinheiro. Gente boa, desperta e especializada que já percebeu que há mais vida para além dos fins lucrativos do trabalho.

Toca-me também, nesta história da Fontinha, o concreto do “bairro”, esquecido, precário, devoluto, envelhecido, inspirador da rubrica Porto-Morto-Vivo que alimentei a soluços no meu blog anterior, quando vivi no Palácio Olivença da Rua do Bonjardim, logo à frente do Espaço Musas. Foram tempos de despertar para a cidadania* aqueles em que habitei aquela zona da cidade, enquanto tentava o apoio da Câmara para a recuperação do edifício.

* Nota: a cidadania surge primeiro dentro de nós, e estende-se depois para o que está à nossa volta, o espaço físico e humano em que vivemos. Foto de Pedro Ferreira

* Nota: a cidadania surge primeiro dentro de nós, e estende-se depois para o que está à nossa volta, o espaço físico e humano em que vivemos. Foto de Pedro Ferreira

É que, olhando em redor, o Porto está cheio do que resta de edifícios entregues à degradação. O “sistema”, por sua vez, não se dispõe propriamente a apoiar, com os seus/”srus” programas publico-privados, a reabilitação da zona de intervenção prioritária do Porto. A experiência traumática que vivi, deixa-me céptica agora quando leio, através do Twitter, que a Câmara, em Assembleia Municipal, diz que “aceita analisar projectos para o local” da ES.COL.A. É que os contornos desses projectos, e processos, se bem me lembro, somente servem ora para cortar os pulsos, ora para escrever poemas burocráticos.

Os perigos da auto-gestão

Quão perigosa é a concretização de um ideal de sociedade (local, comunitária) não alienada do espaço, do outro, portanto, humana? Será perigoso estar disponível para tornar a urbe mais humana? Ter tempo para dedicar a actividades não comerciais, sem fins lucrativos, sem dress code? Reabilitar o que foi vandalizado, sem “interesses”, só porque sim, amedronta alguém?

Neste espaço colectivo auto-gestionado (ou fora do físico dele, porque já estava emparedado na altura), tive o privilégio de participar no momento mais bonito de democracia que até então tinha vivido. Participei na arrepiante Assembleia Popular pós-desocupação da ES.COL.A que aconteceu na semana passada, no Largo da Fontinha. Quase um ano depois da morte do meu Porto-Vivo, reencontrei os vizinhos do bairro do Bonjardim, ali, envolvidos, comprometidos na procura de uma retoma consensual das actividades que tomavam lugar há já um mês. Vi cerca de 100 pessoas a analisarem colectivamente uma problemática que nos toca a todos, a tomarem decisões em consenso, a desenharem sobre o granito do Largo uma linha de acção.

BD de José Smith Vargas

BD de José Smith Vargas

A provocação do emparedamento da ES.COL.A à bruta pela polícia, ordenada pelo poder político do Porto – talvez amedrontado pela espontaneidade “voluntarista” de quem se propôs a devolvê-la ao bairro – deflagrou os ânimos_animou os ritmos_ritmou as assembleias, e por aí em diante em cadeia, que só temos a agradecer a quem nos dá a oportunidade de reflectir sobre todas estas questões, agora assim escancaradas na cara de tanta gente. E seremos mais.

Não é só na Fontinha. O Porto está cheio de quarteirões por dentro quando se olha o lugar de outra perspectiva.

Enquanto isso, as actividades da ES.COL.A continuam no Largo da Fontinha.

Acompanhem o blog e a página no Facebook da ES.COL.A, conheçam a história daquela zona da cidade.

Enquanto não saem à rua para experimentar este sentido de liberdade e cidadania, sugiro a leitura do manifesto do Júlio do Carmo Gomes, do Gato Vadio, a análise do José Soeiro, deputado do Bloco de Esquerda, e o contra-ponto de Tiago Fernandes, militante do PSD, que relatou também o decorrer da assembleia municipal pelo Twitter (@taf), juntamente com a Catarina Martins (@catarina_mart), do BE, e o Vitor Silva (@vitorsilva), do Hacklaviva.